Segundo o Manual de Classificação de Transtornos Mentais (DSM-V) o transtorno do espectro do autismo (TEA) está agrupado nos transtornos do neurodesenvolvimento infantil. O TEA é uma condição heterogênea com múltiplas apresentações clínicas, que envolvem comprometimentos nas áreas de interação social e linguagem, incluindo sintomas emocionais, comportamentais, cognitivos, motores e sensoriais. A fisiopatologia ainda é desconhecida e pesquisas atuais sugerem o envolvimento de fatores genéticos, ambientais, inflamatórios, imunológicos e metabólicos em suas múltiplas interações como possíveis causas.
A prevalência de TEA no mundo vem aumentando drasticamente nos últimos anos, chegando a 1 caso a cada 44 crianças pelo Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) americano de 2021. Sua ocorrência é 4 vezes maior em meninos do que em meninas, distribuindo-se igualmente entre diferentes grupos étnicos e socioeconômicos.
O diagnóstico do TEA ocorre com avaliação clínica multiprofissional, não existindo exame de imagem ou laboratorial que possa confirmá-lo. Comumente ocorre comorbidades associadas, como Transtorno de Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH), Transtornos de Sono e do Humor, Ansiedade, Sintomas Psicóticos, entre outros.
Como o TEA não consiste em uma única condição médica, mas em um conjunto de sinais e sintomas, seu tratamento deve ocorrer de forma individualizada. O tratamento não farmacológico deve ser multidisciplinar, com profissionais de nutrição, psicologia, fonoaudiologia, terapia ocupacional, fisioterapia e outras especialistas. Até o momento o Food and Drug Administration (FDA) não aprovou nenhum fármaco específico para tratar os sintomas desse transtorno. Dessa forma, a farmacoterapia utilizada atualmente tem limitados objetivos que visam melhorar os sintomas associados ao TEA. Dois antipsicóticos, Risperidona e Aripiprazol são utilizados para tratamento dos sintomas de irritabilidade e agressividade. No entanto, a eficácia é limitada, e grande porcentagem dos pacientes não é responsiva. Além disso, podem causar efeitos colaterais consideráveis sobre funções metabólicas.
Recentemente, o uso de canabinoides tem sido investigado por diversos grupos de pesquisa como alternativa terapêutica para variados perfis do TEA. Vários estudos vêm demonstrando resultados promissores dessas moléculas, principalmente do Canabidiol (CBD) e do delta-9-tetra-hidrocanabinol (THC). Aran Adi et al. realizaram um estudo retrospectivo que avaliou a tolerabilidade de Cannabis rica em CBD em crianças com TEA com sintomas comportamentais severos. Cerca de 44% dos pacientes avaliados obtiveram resultados excelentes, 24% melhora parcial, 20% sem alteração e 10% apresentaram alguma piora. Os efeitos colaterais foram brandos, não sendo relatado nenhum efeito adverso grave. Em outro trabalho de Aran et al. foi realizado um estudo duplo-cego, randomizado, com crossover, para avaliar a resposta terapêutica dos sintomas comportamentais de pacientes com TEA quando submetidos ao tratamento com derivados de canabinoides. A respeito de comportamentos disruptivos, 49% dos 45 pacientes que receberam o extrato completo de Cannabis apresentaram uma melhora importante. Mais uma vez, não foram observados efeitos adversos graves.
Vemos que a Cannabis medicinal pode ser uma terapêutica segura e eficaz em pacientes com TEA por suas ações de diminuição da excitabilidade neuronal a partir da modulação do receptor CB1, e sobretudo pelos efeitos anti-inflamatórios em sua atuação no receptor CB2, inaugurando uma nova via de tratamento para essa condição.


